Conectados a tudo e desconectados de nós

Talvez uma das marcas mais silenciosas do nosso tempo seja a dificuldade crescente em suportar os vazios. Vivemos conectados, estimulados e ocupados quase o tempo todo. Há sempre algo para fazer, alguma meta a alcançar, uma mensagem para responder, uma imagem para ver ou um conteúdo para consumir. E, mesmo assim, a sensação de insuficiência diante do outro (e, frequentemente, de nós mesmos) parece persistir. Parece que nunca estivemos tão cercados de possibilidades e, ao mesmo tempo, tão cansados.
Muitas pessoas seguem funcionando, cumprindo tarefas e respondendo às exigências do cotidiano, mas carregando uma exaustão que não se explica apenas pelo excesso de compromissos. Parece haver algo mais profundo em jogo. Como se descansar provocasse culpa. Como se parar significasse falhar. Como se aquilo que somos ou fazemos estivesse sempre aquém do que deveria ser. Essa lógica pode começar desde cedo, pois muitas vezes aprendemos socialmente que é preciso melhorar continuamente, produzir mais, destacar-se, corresponder às expectativas, ser útil. Nem sempre em razão de uma cobrança explícita, mas a ideia de que nunca é suficiente insiste e acaba sendo absorvida de maneira quase imperceptível. Aos poucos, o valor pessoal deixa de estar ligado à experiência de existir e passa a depender do desempenho. Nesse cenário, os momentos de pausa também se tornam difíceis. O silêncio incomoda. O tédio parece insuportável. Esperar tornou-se algo a ser evitado. E os recursos tecnológicos, embora tragam inúmeros benefícios, passaram a ocupar, frequentemente, um lugar que vai além da comunicação ou do entretenimento. Muitas vezes, funcionam como uma forma de preencher qualquer espaço vazio. Não é raro observarmos pessoas que adormecem diante da tela, familiares ou amigos reunidos fisicamente, mas emocionalmente distantes, ou uma necessidade quase automática de recorrer ao celular diante dos primeiros sinais de solidão, ansiedade ou inquietação. Não porque haja algo de errado em utilizar a tecnologia, mas porque ela pode acabar servindo como uma defesa contra experiências humanas inevitáveis: a espera, a falta, a tristeza, a dúvida e o encontro consigo mesmo.
No entanto, nossa vida psíquica não se desenvolve apenas nos momentos de satisfação. Ela também se constrói nas pausas, nos intervalos, na capacidade de suportar frustrações e de permanecer algum tempo sem respostas imediatas. É nesses espaços aparentemente vazios que surgem a imaginação, a criatividade, o pensamento e até mesmo a possibilidade de um encontro mais verdadeiro com os outros e consigo próprios. Talvez por isso seja importante fazermos uma pergunta diferente. Em vez de nos preocuparmos apenas com o quanto fazemos ou com o tempo que passamos diante das telas, talvez seja necessário perguntar por que se tornou tão difícil simplesmente estar. Estar presente, estar em silêncio, estar com alguém, estar consigo mesmo.
Porque talvez o problema não seja apenas o excesso de estímulos ou a busca incessante por resultados. Talvez a questão mais profunda seja que, em uma época em que tudo parece precisar ser preenchido, estamos desaprendendo a habitar os espaços vazios. E é justamente nesses espaços que muitas das experiências mais importantes da vida encontram lugar para existir.
Por Vitor Ramos
06.149076






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