O amor e o tempo
- Sessão de Psi

- 27 de fev.
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Escrever sobre o amor é uma tarefa exigente por algumas razões. Uma delas é porque cada um tem a sua versão e todas são legítimas, ou seja, existe algo de particular nas nossas construções sobre o amor. Entretanto, o amor não é atemporal. Para além das singularidades, o conceito de amor é uma invenção e se relaciona com transformações sociais importantes. Dito isso, o amor deixa de ser só esse conceito abstrato (profundo, complexo, poético, polêmico…), mas também passa a ser uma construção com contexto epocal e territorial. Segundo Mendez (2022), algumas consequências advindas da gênese na concepção cristã do amor sustentam crenças que sobrevivem aos dias atuais. Algumas delas se relacionam com a ideia de sacrifício e renúncia, castigo, culpa e também sobre um tempo com uma eternidade estável. Pois bem, é justamente essa relação do amor com o tempo que procurarei evidenciar aqui.
A concepção do amor romântico, diferente do amor platônico que existe só no plano da fantasia, consiste na idealização de que tal sentimento é intacto no tempo. A famosa frase “felizes para sempre” ilustra bem a questão. Tal ideia tem relação com a emergência da invenção do amor romântico em um contexto de novas práticas de troca. A localidade histórica de tal contexto encontra-se na construção da família nuclear como substituta aos sistemas de parentesco das sociedades feudais. A relação com o tempo cronológico (relógio, calendário romano – meses, semanas) aparece como uma ferramenta de ação para que os comerciantes de diferentes localidades fizessem suas operações (Mendez, 2022).
Quando pensamos no arranjo da família nuclear burguesa e nos moldes do amor romântico, formado em prol da construção desses tipos de laços, costumamos associar que o amor localiza-se no território da vida privada. Entretanto, essa divisão binária entre vida privada e pública consiste justamente em um mecanismo que invisibiliza as relações de poder por trás de tais construções. Ou seja, isolar a família nuclear da vida pública é supor que exista algo que fique de fora do social/cultural.
Trazendo tal discussão para a experiência clínica é possível observar na fala dos analisandos sofrimentos advindos da crença dessa fixidez do tempo em relação aos vínculos. Aqui inclui-se não só parcerias amorosas, mas também as figuras parentais, outros laços familiares (filhos, tios, primos) e os amigos. Dar-se conta que a intensidades dos vínculos e dos afetos se transforma ou finda, ao longo do tempo, pode ser algo devastador. Existe toda uma construção imaginária de que alguns laços sobreviverão intactos, como algo de uma suposta garantia. Nesse sentido, dar-se conta que alguns vínculos supostamente garantidos não são os mesmos é um processo que exige muita elaboração. Na medida que o próprio sujeito atravessa seu percurso analítico e analisa seus vínculos muitas idealizações são desmontadas.
Desmontar as idealizações dos vínculos “garantidos” é um trabalho de luto simbólico (por ex: “o filho que não é o mesmo”, “os amigos que pararam no tempo”, “a mãe/pai que precisa de cuidados”). É comum a frase “não reconheço mais fulano”, talvez não reconhecer algo conhecido possa ser um tanto assustador mesmo. Entretanto, reconstituir e inventar novos vínculos a partir das mudanças dos sujeitos com quem nos relacionamos é uma tarefa que não terá fim, afinal não há como não nos transformarmos com a passagem do tempo. Mas, para além do sofrimento que muitas vezes está envolvido nesse processo, há também um território de muita potência.
Referência: María Laura Mendez. O fim do amor ou a queda de uma ilusão? In Psicanálise de casal e família, 2022.
Por Maria Caroline Ofsiany
06.145073






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